Flip 10 anos

Flip2012

Segunda-feira pós Flip em Paraty. A rebordosa de uma cidade após um evento de 5 dias. As pessoas de verdade da cidade colocando as coisas em ordem. Outras, como eu, colocando as ideias no lugar.

É difícil escrever sobre o evento. Nada do que eu disser aqui vai refletir a experiência dos últimos dias, nem deste ano nem dos anteriores. Afinal são muitas coisas, pessoas, histórias para contar sobre as quais o filtro do tempo começa a incidir.

Portanto é bom guardar/registrar algumas coisas importantes deste ano:

 

A primeira, como o homenageado do ano foi o mineiro Carlos Drummond de Andrade, se deve a breve aula dada pelo Prof. Eucanaã Ferraz sobre a múltipla dicção da obra do poeta maior. Se tinha uma pedra ou uma perda no meio do caminho, preciosa, esta foi um pouco mais lapidada.

 

Outra, a citação de Faulkner, feita pelo colombiano Juan Gabriel Vásquez e a analogia entre fósforo e literatura (que amplio para toda a forma de arte):

“Acender um fósforo no meio da noite em um descampado não permite ver nada mais claramente, apenas ver com clareza toda a escuridão em volta”.

 

A última deste ano, e talvez a mais emocionante, foi a leitura que o escritor Luís Fernando Veríssimo fez do seguinte texto do Millôr Fernandes na mesa de encerramento do evento:

Aqui sozinho

Aqui sozinho, toda a história da vida e da humanidade rola diante de mim. Respiro o ar inaugural do mundo, o primeiro perfume das rosas do Paraíso ainda recendente a originalidade. Vejo as pirâmides subindo; o rosto da esfinge pela primeira vez iluminado pela lua cheia; ouço os gritos dos conquistadores avançando através dos séculos. Observo o matemático inca no orgasmo de criar a mais simples e fantástica invenção humana, o zero. Entro na banheira em Siracusa junto com Arquimedes e sinto, emocionado, meu corpo sofrendo um impulso de baixo para cima igual ao quadrado do volume do líquido por ele deslocado. Reabro feridas de traições, angústias do poder, rios de sangue correndo pela história, justos sendo condenados, injustos apoteoticamente glorificados. Sinto as frustrações neuróticas de tantos seres ansiosos, e a tentativa de superá-las com o exercício de supostas santidades. Com emoção a que nada se compara, começo a decifrar, junto com Champolion, numa pedra com uma tríplice inscrição, o que pensavam seres humanos em dias assustadoramente remotos. Acompanho um homem num desses instantes de fulgor que embelezam e justificam a humanidade, pintando e repintando o teto de uma capela. Ouço o som divino que outro artista compõe e que ele próprio é incapaz de ouvir. Recomponho o rosto de maravilhosas espiãs e cortesãs, seduzindo grandes e poderosos. Conheço lindas histórias de afeto, pungentes histórias de amor, incríveis histórias de paixão. Aqui, neste recanto tranqüilo, estou envolvido numa experiência única, pessoal e profunda, com tudo que passou, que se criou, se pensou. Eu, aqui, só com minha imaginação – e um livro.

Millor Fernandes 1924-2012

 

Estes momentos vão ficar na memória, assim como ficaram ouvir o próprio Ferreira Gullar recitando parte do seu Poema Sujo em 2010, ou quando me senti o sujeito mais mal vestido do mundo ao lado do jornalista americano Gay Talese em 2009, ou o arrepio quando cruzei a noite com o Sr. Gaiman numa das ruas de pedra da cidade em 2008, e tantos outros…

 

 

 

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