Conselhos para um jovem designer

Junho de 1996. Um jovem universitário caminha entre os edifícios do campus da Universidade Federal de Minas Gerais. Um prédio para os cursos de belas artes. Outro para os de humanas – Fafich. Outro para os de biologia – ICB. Virando à esquerda, o prédio de seu curso de Física, o de ciências exatas – ICEX. Ele se pergunta por quê são tão distantes uns dos outros. Na mochila, entre o livro vermelho de cálculo e as apostilas de álgebra linear, os quadrinhos, livros de ficção e um caderno gasto de desenhos.

Vinte anos atrás eu era este jovem. Seguia meu sonho de infância: ser um cientista. Tinha boas notas em ciências e matemática. Me imaginava trabalhando pelo resto da vida em um laboratório. Estava decidido a me tornar um físico. Com 18 anos as chances de você escolher uma carreira profissional ideal e segui-la pelo resto da vida são baixíssimas. Falo por experiência. Acabei me tornando designer gráfico.

Os dois conselhos que tenho para um jovem designer são aprendizados que adquiri nos últimos anos. Também podem servir para outras carreiras – troque o “designer” pela “sua profissão”. Serviriam muito ao Bruno de 18 anos que sonhava se tornar um cientista.

Primeiro,

você precisa saber
(1) como se tornar um designer,
(2) como ser um designer,
(3) como construir uma carreira como designer,
e (4) como gerar riqueza e sustento com o design.

Segundo,

você precisa saber que estas quatro coisas são bem diferentes.

 

São dois conselhos, mas o primeiro se divide em quatro partes. Vamos detalhar estes quatro “comos”.

1. Como se tornar um designer

Para se tornar um designer, três coisas são necessárias: uma formação teórica, uma formação técnica, e repertório. Um bom começo é escolher um bom curso, uma boa faculdade, onde se possa ter contato com todas as disciplinas básicas. Além de arte, estética, semiótica, você também precisará de conhecimentos técnicos e ferramentas para transformar teoria em prática. O designer é um “fazedor”. Só se aprende a parte técnica com muita prática, cursos complementares, estágios e dedicação. Além disso, você precisa construir um repertório, para ser capaz de identificar soluções e oportunidades. Repertório vem com o tempo, com mentores, com atenção ao dia a dia.

2. Como ser um designer

Para ser um designer é preciso enxergar o mundo como um designer, ter o mindset de um designer para interpretar o que se enxerga do mundo e produzir a partir disso. Enxergar o mundo sob o ponto de vista de um designer é ver forma e função em tudo. É ver uma propaganda na TV e perceber a escolha de cores, de tipografia. É baixar um aplicativo novo e observar os detalhes de sua interface, seu funcionamento. É estar atento ao design das coisas, do mundo. Em seguida, é preciso processar estas percepções com o mindset adequado, interpretando, buscando equilíbrio, otimizando tempo, se colocando no lugar do usuário, tornando cada experiência mais agradável, fluida, empática. Principalmente, ser um designer é produzir. É praticar o design naquilo que se faz. Todos os dias.

3. Como construir uma carreira como designer

Para construir uma carreira como designer é preciso pensar o seu trabalho no tempo. Entender o momento, o contexto, o propósito, a vida ao redor. Evoluir junto a sua obra, suas ideias, às pessoas para as quais elas tem significado e função. Para construir uma carreira é necessário estar sempre praticando os dois primeiros “como”: sempre aprendendo algo novo, sempre praticando o olhar, desenvolvendo o mindset e produzindo.

4. Como ganhar dinheiro como designer

Para gerar riqueza como designer, e transformar o seu afazer em sustento, é preciso pensar e entender o valor do design. O que você faz é algo barato ou caro? É para poucas pessoas ou para muitas? Qual o valor estético, funcional, pessoal, do seu trabalho para quem o usufrui? O trabalho de um designer não é especulativo. Ele é real, prático. Ele está no envolvimento pessoal do designer. Não é obra de arte: ele possui destino, público, objetivo estético e funcional. Você vai trabalhar para outras pessoas, para empresas e marcas, e não será bem remunerado no princípio – como em qualquer profissão. Com o passar do tempo, exercitando os três primeiros “comos”, seu trabalho vai ganhar valor. Quanto maior o valor daquilo que você faz para quem você faz, maior será o valor do seu trabalho.

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Ninguém é apenas aquilo que faz. Porém, a escolha daquilo que fazemos todos os dias tem impacto imenso na vida que vivemos e em quem nos tornamos. Aos jovens designers, meus dois centavos sobre a profissão.

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