Uma aula de branding

O artista britânico Damien Hirst criou em 1991 uma de suas obras mais famosas chamada “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living”. Ela consiste em um tubarão-tigre de 5 metros de comprimento embalsamado e mergulhado em um tanque de vidro (este da foto acima). É uma obra com um impacto e tanto. A venda desta escultura de 2 toneladas por 12 milhões de dólares e de todos os envolvidos nesta transação é uma verdadeira aula de branding.

tubarao23No livro “O tubarão de 12 milhões de dólares”, o economista e autor Dan Thompson disseca o mercado da arte contemporânea e detalha cada um dos seus personagens. Os artistas, os agentes, os marchands, as casas de leilão, os colecionadores, as feiras de arte, os museus, os críticos de arte, os curadores, todos eles tem o seu papel neste sistema. E todos eles participam do complexo processo de valorização de uma obra de arte.

 

“Por que passaria pela cabeça de alguém pagar tudo isso por um tubarão embalsamado? Em parte a resposta é que no mundo da arte contemporânea a gestão de marca pode substituir o juízo crítico, e aqui havia muito trabalho de gestão de marca”

A história do tubarão começa com o artista fazendo um anúncio por telefone em várias agências de correio do litoral australiano com a frase “Precisa-se de tubarão”. O tubarão custou 6 mil libras, 4 para a captura e 2 para o acondicionamento e o despacho para Londres. A obra, na ocasião da venda, pertencia ao colecionador Charles Saatchi, magnata da publicidade e famoso colecionador de arte. O agente que negociava a venda era Larry Gagosian, o negociante de artes mais famoso do mundo. Haviam entre os interessados na compra Nicholas Serrota, diretor do Tate Modern de Londres, e outros quatro colecionadores com recursos financeiros (praticamente) infinitos, entre eles Steve Cohen, riquíssimo executivo de mercado de capitais com renda anual estimada em 500 milhões de dólares. Some o valor das marcas dos nomes de todos os envolvidos – Hirst, Saatchi, Gagosian, Tate, Cohen – e você tem uma obra que vale muito mais do que sua composição material ou seu valor estético e semiótico. Cohen levou.

O livro é uma leitura instrutiva e divertida. Os personagens, os valores astronômicos, as histórias e personalidades envolvidas, valem o livro. E para os interessados em marcas serve para uma boa reflexão sobre como e porque os significados geram valores e vice versa.

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Separei mais algumas pérolas do livro abaixo. Até a próxima.

“O que os ricos querem comprar é o que os economistas chamam de “bens de Veblen” ou “bens de status”, coisas que provam para o resto do mundo que eles são realmente ricos.”

 

“Arte é sexy! Arte é grana-sexy! Arte é grana-sexy-ascensão-social-fantástica!”. Thomas Hoving, Ex-diretor do Metropolitan Museum of Art

 

“Colecionadores experientes não perdem muito tempo se incomodando com o significado. Se a obra é cara a ponto de alguém perguntar o sentido ao marchand ou ao colecionador, provavelmente eles vão apenas inventar alguma lenda bem rebuscada”.

 

“Há mais semelhança nos desafios de marketing de vender um quadro precioso de Degas ou um copo de refrigerante gelado do que se pode imaginar”. A. Alfred Taubman, Ex-acionista majoritário da Sotherby’s

Photo by Kecko