A gente aprende viajando

Quando morava em São Paulo, era mais ou menos assim… No último andar de um daqueles prédios com enormes varandas da Alameda Itú. Centro cardíaco da maior cidade do hemisfério sul. Via o dia nascer com seu grito de criança ao sair da barriga: pessoas, carros, trens, ambulâncias, bombeiro e polícia, motoboys, buzinas, o barulho do asfalto, e aviões a jato, e helicópteros. O urro diário do despertador. Um murro. Banho, barba, café, roupas de trabalho, elevador, taxi, trânsito, elevador, café do trabalho, computador, e-mails, reunião, ligação, checa os e-mails, almoço executivo, café do almoço, checa os e-mails, reunião, monta aquela planilha, cliente, envia a apresentação, chefe, confere o trabalho da equipe, chefe do chefe, reunião, checa os e-mails, desliga o computador, elevador, trânsito, checa os e-mails, bar do happy hour, desabafo diário, elevador, casa, tira os sapatos, liga a tv, comida de microondas, checa os e-mails, banho, netflix até dormir.

Em algum momento, entre 2013 e junho de 2014, uma ideia de viagem foi plantada nas minhas ideias. Entre um café e os e-mails. Entre um desabafo diário do happy hour com os amigos e o banho antes do sono. Digo plantada pois este tipo de ideia é plantada, como semente. Demora um certo tempo para crescer. Precisa de horas de insônia para irrigá-la. Sou metódico. Gosto de analisar as ideias por diversos ângulos, criar cenários, testar soluções e garantir um certo controle sobre as suas conseqüências. Defeito de fábrica. A ideia foi se cristalizando, ganhando corpo e propósito. Já não era a ideia inicial. Já não era ideal. Já podia colocá-la em prática. Faltava só uma coisa: coragem.

E a coragem veio de várias formas. Dedicada num livro. Nas histórias de amigos. Naquele filme que eu não dava a menor bola e que me fez sair do cinema sem palavras. Foi ficando maior que a dúvida. E, num dia de junho, meu mês de primavera, ela virou decisão. Deixei o trabalho do escritório. Empacotei minha casa em 84 caixas. Transformei tudo o que tinha em uma mala e uma mochila. Passaporte, cartões, telefone, máquinas fotográficas, um notebook, fones de ouvido, óculos de sol, bota, casaco, jeans, uma camisa do Galo, e embarquei.

Resolvi que precisava ver o mundo. Falar, ouvir, entender outras línguas. Outras culturas. Outras visões de mundo. Outros mundos. Escrever. Mais para mim. Mas também para os outros. Fotografar. Com as lentes. Com a memória. Andar por ruas. Não saber o que o dia irá trazer. Pensar nas coisas que precisam de tempo para pensar. Aprender, com livros, com lugares, com pessoas, com aulas, com o tempo. Em outubro de 2014 estava em Nova York. Ali começava uma viagem que ainda não terminou. Uma aventura pelo mundo. Que vai ficando cada vez maior. Cada vez menor. Cada vez mais longe de casa. Como ele é redondo, cada vez mais perto também.

Estou neste momento em Istambul, uma cidade que conecta o mundo ocidental ao oriental. Escrevo numa noite fria e de céu aberto, estrelas, a vista das mesquitas da cidade velha do outro lado do Bósforo. Mais de seis meses longe da vida que eu vivia em São Paulo. Não sei se é o meio da viagem. O início de outra maior. Ou a saudade de casa. Ou o dejavú que acabei de ter quando voltava pelas ruelas da cidade, entre os gatos e as gaivotas. Um lugar que eu com certeza nunca estive antes para ter memória. Escrevo para contar para mim mesmo o que estou fazendo.

Já me perguntaram algumas vezes: “onde está indo”, “o que está fazendo agora”, “o que você faz”, “para quê está viajando”. E já dei diversas respostas. Todas são a mesma, mas cada uma parece trazer uma parte da resposta. Estou viajando. Estou viajando porque é o que preciso fazer. É o que quero fazer também. Mas é como se fosse uma oportunidade que não posso perder, ou como se diz lá em Minas “um cavalo arreado”. A semente da ideia nasceu de um papo daqueles que se conversa com os amigos pra lá da meia noite. “Ah, se eu pudesse ia viajar, dar a volta ao mundo”. Mas eu nunca podia.

Até que uma sequência de pequenas coincidências me fizeram realmente analisar a questão. A essas pequenas coincidências eu chamo de ‘pequenas coincidências’. Achar que são sobrenaturais seria superstição. Não sou disso. Se você soma toda a série de acontecimentos necessários para você estar naquele momento, naquela janela de oportunidade, pronto para embarcar, é necessário levar a sério a questão. Coloquei tudo no papel. Prós e contras. Fiz planos. Refiz. Contas. Ponderações. Conversei com amigos próximos. Todos, sem exceção, me disseram a mesma coisa “É, você tem de ir.” Fui me convencendo de que era algo simples, que não precisava de muito planejamento. Era mais uma questão de afirmação. De tratar a ideia como fato. O improvável como parte do plano. E de fato aqui estou escrevendo sobre isso.

Estar viajando, pelo mundo, não é o que faço, nem o que sou. É só onde estou. O que eu sou são outras coisas. São a somatória das pequenas coisas que me fizeram vir até este ponto. Coincidências ou não. Ninguém é uma profissão. Ou uma carreira. Ou o título que vem embaixo de seu cartão de visitas ou currículo. Tudo isso é parte do que você é e do que faz. A gente é aquilo que faz. E o que gera algum reflexo nos outros. Ações. Obras. Coisas. Conectáveis. Experimentáveis. É preciso fazer coisas. Fazer o máximo de coisas possível. É por isso que eu estou viajando.

Estou dando a volta ao mundo, porque é onde estou agora. Mas sou o Bruno de sempre, com erros e acertos, com um pouco mais de coragem e bagagem nas mãos.

06 de Abril. Istambul, Turquia. 2015.

Algumas fotos da viagem, até aqui: https://instagram.com/brunomilagres/