Imagens de Nova York

O que é preciso dizer sobre Nova York que já não foi dito, fotografado, filmado, televisionado? Nova York é um simulacro de si mesma. Mas quem não é?

Neste tempo aqui fiz algumas anotações sobre o processo de construção da imagem de uma cidade para uma pessoa que a visita pela primeira vez. Como é o meu caso.

23 de outubro, quinta-feira – Hells Kitchen

Da janela do 46 andar as pessoas caminhando pela Broadway a noite parecem iluminadas pela luz especial que só existe nos filmes ou nos sonhos. O Hudson ao fundo é uma pista não delimitada para helicópteros. A pirâmide de luz no alto do prédio ao lado se apaga à meia noite. O relógio digital marca a hora e a temperatura. Minha primeira impressão foi a do gentil motorista com meu sobrenome numa placa. Brasileiro, com o mesmo nome do meu irmão: Rodrigo. Peguei de cara mais de uma hora de engarrafamento e cheguei debaixo de chuva. Leio as notícias das eleições no Brasil. Assisto um pouco do jornal local. Vou dormir e não consigo, tentando digerir um milhão de informações novas. Mudar de cidade, de país, de estilo de vida, tudo, de uma só vez, é uma explosão de novas imagens.

29 de outubro, quarta-feira – Bryant Park

Sentado num banco, vendo um velhinho jogando tênis de mesa sozinho. Saque. Ninguém do outro lado rebate a bola. Ele vai atrás da bolinha, volta para seu lado e saca denovo, para ninguém. Uma nova-iorquina de verdade me conta como é viver e morar aqui desde criança. Como foi o 11 de setembro. Começo a entender a cidade. Os medos e os sonhos dos americanos. A noite vejo o Bulls ganhar do Knicks no Madison Square Garden e lembro que esse era meu sonho de garoto. Meus sonhos envelheceram. Falta água em São Paulo. Aqui bebo água da torneira.

3 de novembro, segunda-feira – 5 Avenida

Andei o dia todo e tirei inúmeras fotografias. A luz da cidade, por estarmos bem ao norte do equador, é sempre de 3 ou 4 da tarde. Não tem aquele sol no cocuruto que estraga todas as fotos do meio dia. Penso no quanto a luz transforma a cidade. Cria sua imagem. Influencia quem cria a imagem da cidade. Os artistas. Os arquitetos. Os designers. Vejo as crianças saindo da escola. A aula de ballet. Uma senhora dormindo no metrô. As pessoas indo e voltando do trabalho no Financial District. O cotidiano vive numa segunda-feira.

11 de novembro, terça-feira – Chelsea

A cidade são várias cidades. Cada distrito, cada pedacinho, tem sua história, seu universo particular. A soma dessas partes cria a cidade. A Estátua. As pontes. Os cafés. As ambulâncias e carros de bombeiro. As estações de metrô. Os prédios colados uns aos outros. Sem muros. Os rios. As ruas paralelas. As avenidas verticais. O parque. As praças. Os arcos. Os edifícios clássicos. Os arranha-céus. As antenas. Os barcos. Os pássaros. Os esquilos. Os ratos. As bicicletas. Os turistas. Os taxis amarelos e seus motoristas. As bibliotecas. Os muros. As camisetas. E tudo que existe de invisível nessas coisas todas. E nas pessoas. E na cabeça das pessoas.

23 de novembro, domingo – West Village

Encontro a cor certa da cidade no pier onde vou para fazer exercícios e espairecer a cabeça. É preciso encontrar a luz de cada cidade. O jeito de tratá-la. Cada cidade é de um jeito. Tem uma paleta de cores. Uma luz. Penso no Rio. Penso em Beagá, minha cidade natal. Acho que nunca tive tempo para descobrir a cor destas cidades. Shame on me. Ando pensando muito em fotografia. Leio as notícias esportivas e planejo onde vou comemorar o título do meu time de futebol aqui nesta cidade. Gostaria de estar no Brasil. Em Belo Horizonte. Só no dia desta final.

28 de novembro, sexta-feira pós Thanksgiving – La Guardia

Embarco para conhecer Detroit, com dois pitstops em Atlanta e Chicago. Uma pausa de Nova York. O aeroporto, a rodoviária, as estradas, são a primeira impressão das cidades. Deveriam ter um tratamento diferenciado. A cidade de cima é bem diferente. Ganha uma unidade que não existe lá debaixo. De cima as coisas mostram seus padrões. Se conectam. Se entrelaçam. Lá de baixo só se vê o aqui e agora.

9 de dezembro, terça-feira – 19th street

Chegando em casa vejo quatro limusines brancas paradas na frente do meu prédio. As pessoas não estão nada contentes com o assassinato de um afro-americano por policiais. “I can’t breath” estampa os cartazes, camisetas e jornais. Em visita na cidade estão o príncipe e a princesa do Reino Unido. Os americanos os adoram. No Brasil as pessoas choram a morte de um herói nacional, o Chaves. Vi o Genesis do Sebastião Salgado. Possui uma luz própria, que achou lá nas montanhas e traduz em suas imagens.

17 de dezembro, quarta-feira – Upper East Side

Atravessando o Central Parque para ir ao museu de design Cooper-Hewitt. Frio. Luvas. Aquecedor de ouvidos. Capuz. A cidade vai ficando cheia para o Natal. Iluminada. Os saxofonistas nas ruas de vez em quando tocam Desafinado. No metrô um anão imita Michael Jackson. No museu um iPhone. Na playlist do iPhone Michael Jackson misturado com Jobim. Minha vida é uma ilha. As cidades também. Nova York principalmente.

21 de dezembro, domingo – Hudson Pier Park

Voltei a correr de manhã. Abaixo de zero. Com chuva. Vento. Correr ouvindo ópera me faz  um pouco mais louco e um pouco mais são ao mesmo tempo. A temperatura, o clima, a estação, transformam a cidade. Agora ela está vazia. Somente os mais cabeça-dura correm por aqui neste clima. No verão as quadras de tênis, as de vôlei de praia, a de basquete, a pista de corrida, a ciclovia, devem ficar cheias. No Brasil calor de 40 graus, praias lotadas, e temporais. Que saudade de um temporal. Que saudade do Rio 40 graus. Mentira.

31 de dezembro, quarta-feira – Meatpacking District

Amigos e festa para se despedir de 2014. Ou para receber 2015. O problema das conclusões e dos inícios. Quando cheguei em outubro o horizonte de 3 meses em Nova York era visível. Controlável. Após a virada, o horizonte de 2015 parece maior e mais imprevisível. Pessoas de todo o mundo aqui. Diversidades culturais, sociais, estruturais. Uma cidade de luzes acesas à noite, de necessidade de pertencer, de marcar uma posição. Nova York é uma afirmação – a statement. Talvez esta seja a imagem da cidade. Seja o que sua luz, suas cores, suas formas, de dia, de noite, seus arranha-céus, suas pontes, sua gente, querem dizer.

Se quiserem tem mais alguns capítulos no Instagram, e fotos de Nova York claro. Seguem algumas delas abaixo :)

Até a próxima.

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