Futuro da aprendizagem em Berlim

Participei dos dias 30/11 a 02/12 de 2016 do Online Educa Berlin, uma conferência internacional sobre educação e treinamento suportados por tecnologia. Mais de 2000 profissionais das maiores empresas e instituições do mundo, dos setores corporativo, educacional, público e não-governamental, estiveram reunidos por três dias trocando experiências e discutindo o futuro da aprendizagem. Foram workshops, palestras, painéis de discussão, debates e demonstrações sobre temas que impactam o presente e o futuro da aprendizagem, e ditam os caminhos e tendências para o mercado de Edtech.

Abaixo, seguem os cinco tópicos mais importantes discutidos nestes intensos dias de aprendizagem e que podem servir de inspiração para o mercado de educação corporativa no Brasil.

(Tópicos originalmente publicados no blog da Ciatech – empresa para a qual fiz a cobertura ao vivo da conferência).

Responsabilidade pela aprendizagem

A aprendizagem no futuro estará cada vez mais nas mãos dos alunos. Serão eles os donos e responsáveis pela própria educação. Serão eles os protagonistas. Todos nós – como indivíduos – teremos o controle sobre o que, quando, onde e como iremos aprender. Estaremos empoderados como nunca antes para acessar, conectar, combinar, interpretar e interagir com conhecimentos.

Qual o grande desafio para realmente alcançarmos este futuro? Fazer a transição entre o modelo atual, onde a aprendizagem ainda está centrada em instituições, universidades, escolas, professores, para um modelo centrado no aluno, o usuário da experiência de aprendizagem. E este processo não acontece do dia para a noite. É uma mudança de mindset, uma construção de cultura, dentro e fora das empresas. E esta mudança está intimamente ligada ao desenvolvimento e utilização de novas tecnologias e metodologias para aprender. Algumas delas, como Inteligência Artificial, Realidade Virtual, Gameficação da experiência, irão transformar radicalmente o que conhecemos por educação online nas empresas. Outras, já estão incorporadas à nossa realidade. Como utilizamos ferramentas de busca, vídeos no youtube, instant messaging, crowdsourcing, self-publishing, todas estas coisas já não são novidade. Estamos constantemente as utilizando para aprender.

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O Gap entre Educação e Trabalho na Era Digital

O gap entre o conhecimento para o trabalho – especificamente habilidades para solucionar problemas no contexto digital – e a educação formal das pessoas está aumentando. Inclusive entre Millennials, a proporção de profissionais sub capacitados para funções de alto nível é muito alta. Com o aumento da velocidade de adoção de novas tecnologias e suas constantes mudanças, este gap tende a ficar cada vez maior.

Um dos temas transversais nos painéis da conferência foi exatamente a Alfabetização Digital (Digital Literacy), ou seja, o conjunto de competências para navegar neste mundo conectado, digital, e em constante transformação em que estamos vivendo. Principalmente no setor corporativo, que recebe profissionais vindos de um sistema educacional padronizado e atrasado, a necessidade de acelerar o desenvolvimento destas competências e construir uma cultura de aprendizagem contínua é crucial para seu sucesso. Os profissionais do futuro precisarão não só ter uma alfabetização digital, mas ter fluência digital para desempenhar neste contexto tecnológico.

“Digital literacy is as importante as Reading, Writing and Math.”

Mark Surman

Inteligência Artificial na Educação

Este foi o assunto mais falado em toda a conferência, e esteve presente transversalmente em quase todas as atividades e discussões. Mas qual o real impacto das IAs na educação? Os professores serão algum dia substituídos por maquinas de ensinar?

As IAs irão modificar a forma como ensinamos, e também de como os alunos aprender. Quanto ao ensino, ao papel dos professores, as IAs não substituirão os professores. Mas a atuação do professor irá mudar. O trabalho operacional, de exposição de conteúdo, organização e gestão de atividades, acompanhamento e suporte aos alunos, será aos poucos delegado a tecnologias e aplicações inteligentes. O papel do professor se tornará mais crítico, no sentido de inspirar, conectar diferentes disciplinas, desenvolver habilidades sociais e metacognitivas nos alunos, e ensinar a aplicar estes conhecimentos na vida pessoal e profissional. Quanto ao papel dos alunos, as IAs serão ferramentas poderosas para acelerar o processo de aprendizagem, e tutores sempre (24/7) disponíveis quando e onde forem necessários e capazes de acessar e organizar toda informação necessária.

Sobre o desenvolvimento das IAs, um grande ponto de atenção quanto à necessidade de envolvimento humano no processo, visto os vários exemplos de utilização de algoritmos inteligentes que produzem resultados que refletem uma falta de perspectiva de seus desenvolvedores. Questões que relacionam aspectos culturais, éticos e políticos precisam de supervisão humana na interpretação de dados.

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Desafio nas Empresas

Os desafios das grandes empresas em todo o mundo quanto ao desenvolvimento de colaboradores não são muito diferentes dos desafios enfrentados pelas empresas no Brasil. Já vivemos um cenário de globalização de práticas, metodologias, processos e tecnologias. Existe um movimento de adoção de novas tecnologias em programas de formação, de experimentação de novos formatos (como o VR por exemplo), de gameficação de atividades, utilização de micro-learning, vídeo learning, nas empresas com cultura de aprendizagem consolidada ou em processo de amadurecimento.

Existe uma tendência de investimentos em plataformas de cursos e treinamentos, e na integração do online em atividades on-the-job. Ou seja, se segmentarmos os investimentos pelo modelo 70-20-10, existe uma migração de investimentos do 20 e do 10 para o 70, dando enfoque no conhecimento que o aluno precisa para o que ele está fazendo agora – no gap entre trabalho e aprendizagem.

Inovação nos diferentes setores

De todos os setores que participaram da conferência – corporativo, educacional, público e não-governamental – os principais casos de inovação têm surgido no setor corporativo. Provavelmente pela associação direta de investimentos em educação com os resultados de negócio das empresas, com uma busca constante de eficiência e retorno, mas também por ser o setor com maior volume de investimento em projetos de vanguarda, experimentando e testando novas abordagens e desenvolvendo aplicações para novas tecnologias.

Isto significa uma responsabilidade também para o setor corporativo, de disseminar estas práticas e contribuir para o desenvolvimento dos outros setores com as experiências e casos de implementação de novas tecnologias e metodologias de aprendizagem.

Além dos cinco tópicos em destaque, não poderíamos deixar de citar dois assuntos também bastante comentados na conferência:

 

Blockchain na educação – que é a utilização dos conceitos e tecnologias desenvolvidas para autenticação e privacidade na troca de informações de forma descentralizada em novos modelos de educação online – é uma nova proposta alinhada com a mudança de foco no processo de aprendizagem para o aluno, e poderá ser utilizada na autenticação de certificações, créditos e badges educacionais, inclusive entre diferentes empresas.

 

Automação e simplificação na formatação de conteúdos online – com objetivo de tornar a criação e disponibilização de conteúdos menos onerosa e mais eficiente – como por exemplo salas de aulas (presenciais e online) inteligentes, onde as aulas são transmitidas online, gravadas e publicadas automaticamente em plataformas digitais – nos respectivos programas de formação.