Web Summit 2016: VR, AI, trabalho, design, e Ronaldinho Gaúcho

Estou em Lisboa participando do Web Summit 2016. É uma conferência que tem por objetivo discutir a internet no atual momento e pra onde ela está caminhando. Fiz um roteiro para acompanhar os painéis e conhecer algumas pessoas e empresas que atuam nos assuntos que mais me interessam: design e educação.

Os painéis estão sendo transmitidos ao vivo no Facebook. Em breve, os vídeos de todos os talks estarão disponíveis online. Portanto, e isto é um dos pontos mais visíveis do estado das coisas na internet nos dias de hoje — o conteúdo está ai, aberto, disponível — , o que se segue são apenas minhas anotações e algumas reflexões sobre os assuntos.

Como será a internet daqui a dez anos…

O que é a internet? Já parou pra pensar mais filosoficamente sobre isso? A internet hoje é uma camada de comunicação tecida entre computadores, dispositivos móveis, objetos e pessoas. O termo web é bem pertinente. Em breve será um casulo.

Como ela será no futuro? Como ela será utilizada para a educação (acadêmica e nas empresas) daqui a 10 anos? Se seguirmos a mesma linha de pensamento do Facebook para o futuro da empresa — apresentada pelo seu CTO Mike Schroepfer no painel “Ten years from now…”-, e por consequência de toda a internet, ela será baseada em 3 pilares:

Conectividade — Todo mundo conectado. Todas as coisas conectadas. Empresas conectadas. Serviços conectados. Produtos conectados. Olhando pra educação: escolas, academias, universidades, professores, alunos, conectados. Como essa oportunidade será aproveitada, e por quem será aproveitada, ditará muito o que a educação será em 10 anos. Uma certeza: ela será online.

AI / Inteligência Artificial — Bots. Assistentes virtuais. Tutores virtuais. Já vimos alguns deles, sendo testados. AI é um gamechanger total. Poderão potencializar a forma como aprendemos, ou serão apenas atores periféricos neste processo?

VR / Realidade Virtual — A partir da chegada dos dispositivos de VR e de sua popularização (acredito que nos próximos anos), será um gamechanger também, tanto de trabalho quanto de aprendizagem. Para a educação, eu acredito que seja o mais relevante dos três, visto a importância da experiência visual, a capacidade de experimentar, simular, interagir, criar, para a efetividade do processo de aprendizagem. Enquanto os outros dois pilares são mais tech, eu vejo a VR como um driver mais humano.

Recomendo, além da empolgação com o VR e o AR(realidade aumentada), mais mão-na-massa, mais trabalho real (estudo, teste, experimentação), pois teremos de “aprender-fazendo” a utilizá-los para a educação.

Estava pensando no exemplo dos mapas. Tem se espalhado nas redes sociais um mapa mundi redesenhado e repensado para resolver o problema de proporções e de representar um mapa tridimensional em duas dimensões. Nunca será perfeito. Não é a melhor forma de representar uma esfera. O ideal é representá-la em 3D. Quando tivermos dispositivos de VR nas escolas, as aulas de geografia nunca mais serão as mesmas. Eu imagino que no futuro vamos lembrar destes mapas — como os conhecemos hoje em 2D – e ter a mesma sensação que temos quando falamos de pergaminhos e hieroglifos egípcios.

A internet daqui a dez anos deverá ser um produto da evolução destes três drivers: conectividade + inteligência artificial + realidade virtual.

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Trabalho no futuro

Como será o trabalho no futuro — especialmente para nós designers?

O interessante da abordagem do Carl Bass da Autodesk — no painel “Design and the future of work” — sobre este assunto, de como as coisas — produtos — serão desenvolvidos no futuro, é a ideia de que o trabalho do designer será muito mais em dizer às máquinas e computadores o que fazer do que propriamente executar. O designer entrará com os parâmetros, objetivos, um briefing para a máquina (sugiro vc dar uma googlada no termo Generative Design para entender), que avalia todas as opções e gera a mais eficiente, ou mais adequada para os parâmetros especificados.

Hoje os computadores não fazem quase nada sozinhos. Nós temos de entrar com todos os inputs. São apenas uma ferramenta. Num futuro não muito distante, eles terão capacidade computacional e tecnologia de inteligência artificial para substituir boa parte do trabalho operacional que ainda executamos. Pense numa AI que cria websites de conversão e marketing de performance automaticamente (não estamos muito longe disso). Pense numa AI que cria plantas arquitetônicas de casas aproveitando ao máximo as características do terreno de acordo com as características de quem irá residir.

A ideia de que com a evolução das tecnologias de inteligência artificial teremos uma perda enorme de postos de trabalho reverberou em diversas conversas, painéis, e diferentes assuntos na conferência. Quando penso nisso num setor criativo como o design, vejo pontos positivos e negativos. Nós designers teremos mais liberdade criativa e maior eficiência — menos retrabalho. E precisaremos desenvolver cada vez mais competências de alto nível para este tipo de trabalho, ou colocando de outra forma, teremos cada vez menos espaço para o trabalho operacional, ou teremos de dar outro significado/valor para este trabalho (como acontece com a arte por exemplo).

Olhando pelo lado educacional, todo profissional precisará repensar sua formação para se adequar ao futuro do trabalho. Inclusive o designer.

Homem + Máquina

Existem coisas nas quais nós humanos somos bons, e coisas em que as máquinas são melhores. Analisar e computar um enorme número de dados: máquinas. Contar histórias: nós humanos. Essas coisas nas quais somos bons foram desenvolvidas por gerações e gerações, num processo de evolução cognitiva de milhares de anos. Nós humanos somos muito bons quando o assunto é linguagem e comunicação. Porém temos uma capacidade computacional e de acesso a dados memorizados limitada.

Num futuro onde a relação com a tecnologia é cada vez mais próxima, é interessante analisar como esta relação homem + máquina pode ser explorada. Ou seja, nesta simbiose, se pensarmos novamente no trabalho, o que eu posso fazer daquilo que eu sou realmente bom (que fisiologicamente tenho vantagem construída por milhares de gerações) e o que uma máquina/computador pode fazer naquilo que ela faz melhor.

Um exemplo, explorado no painel “The future of the worker” com Andrew McAfee do MIT e Gary Marcus na NYU, é a evolução das AIs para pilotar carros. As AIs — ainda engatinhando em sua evolução , diga-se de passagem— já são capazes de traçar o melhor caminho para um destino com base em todos os dados de mapa e tráfego e capazes de pilotar o veículo através de sensores e automações. Certamente serão muito melhores do que pessoas normais neste tipo de atividade.

O que a gente vai ver é cada vez mais “Homem + Máquina” e não “Homem x Máquina”.

Este processo de evolução de tecnologias levanta uma série de dilemas. Um deles é impacto econômico desta tecnologia — não só a substituição de motoristas (de taxis, de carros, de caminhões em estradas), mas de toda a sua cadeia de valor (comércios em beira de estrada, hotéis, postos de combustível, etc.). Como trataremos todos estes novos “desempregados”? Por isso também a tema educação para o trabalho tem tanta sinergia com o futuro do trabalho — outro viés de solução é renda básica, que surgiu algumas vezes nas conversas.

Outro dilema é a questão da busca por significado no trabalho, que tem se intensificado com a mudança de gerações, de instrução e de formas de trabalho. Um artigo recente do Dalai Lama no NYT aborda este tema, e recomendo a leitura: “Behind Our Anxiety, the Fear of Beeing Unneeded”. Abaixo, um pequeno trecho:

Refugees and migrants clamor for the chance to live in these safe, prosperous countries, but those who already live in those promised lands report great uneasiness about their own futures that seems to border on hopelessness.

Why?

A small hint comes from interesting research about how people thrive. In one shocking experiment, researchers found that senior citizens who didn’t feel useful to others were nearly three times as likely to die prematurely as those who did feel useful. This speaks to a broader human truth: We all need to be needed.

Design e Tecnologia

Cinco anos atrás, se você perguntasse qual empresa de tecnologia tem o design como diferencial do seu negócio, a resposta seria “A Apple”, e talvez mais uma ou duas. Hoje, praticamente todas as empresas deste setor enxergam no design um valor muito grande para competir neste mercado. Empresas como IBM, Google, Microsoft, com investimentos significativos e áreas inteiras dedicadas ao design de seus processos, produtos e serviços.

O design nunca esteve tão em alta. Empresas do mundo inteiro, dos mais diferentes setores de negócio, estão entendendo sua importância para desenvolver produtos e serviços de sucesso. No painel “Designing the next industry transformation”, o CEO da Frog, Harry West, abordou um ponto importante sobre a diferença entre a “digitalização” dos negócios e a “transformação digital” dos negócios. Não se trata de simplesmente reproduzir um negócio através do digital, mas de repensá-lo e transformá-lo através do digital. Além disso, destacou o processo de aquisição de estúdios e consultorias de design, tanto por consultorias de negócio, quanto sendo internalizados por clientes. Este processo tende a levar o design cada vez mais próximo à estratégia dos negócios.

Já o designer John Maeda, no painel “Design at the core”, levou a discussão um pouco mais a fundo, tentando entender o porquê do design ter ganhado este protagonismo, e do mindset de resolução de problemas que um designer desenvolve como competência básica estar se disseminando nas empresas. O design tem um papel de inclusão. Principalmente no setor de tecnologia, o design faz o papel de filtro no entendimento dos usuários. De dar acesso a este usuário a uma tecnologia. De trazer esta tecnologia para sua realidade, para seu dia a dia, de forma acessível. Destacou a importância desta inclusão principalmente para o desenvolvimento de soluções em VR, para que esta tenha aderência e significado aos usuários.

Eu tendo a pensar muito nesta interação entre empresas e seus usuários de produtos e serviços de Edtech. Como levar um conhecimento para o dia a dia de uma pessoa que o necessita de alguma forma, através de metodologias e processos digitais. As duas falas citadas acima ressoam muito: tanto a “transformação da educação pelo digital” — a necessidade de repensar o negócio e não apenas replicá-lo digitalmente, quanto a capacidade de de fazer isto de forma inclusiva, significativa, e aderente à realidade do aluno. Principalmente num país com a cultura de aprendizagem como a que temos no Brasil.

A era do conhecimento

O que vem a seguir para a humanidade? “What’s next?” perguntava já de cara o primeiro slide do painel “The age of knowledge” com Albert Wenger, sócio da Union Square Ventures.

Seu argumento, e tema de seu livro World After Capital — dá pra ler ele todo aqui-, é de que esta virada de eras, da era industrial para a do conhecimento, é muito mais profunda do que aparenta. E por qual motivo? Pelo que é mais escasso nesta era — na famosa era da abundância: Atenção.

Primeiro éramos caçadores-coletores, e a escassez era de alimento. Então veio a revolução da agricultura, e a escassez passou a ser de terra/propriedade. Então veio a revolução industrial, e a escassez passou a ser de capital. Agora, com a revolução digital, a escassez passou a ser de atenção. Temos acesso a informação infinita, mas temos apenas uma quantidade limitada de atenção para dedicar.

O que as redes sociais, os anúncios de TV, os políticos, os clubes de futebol, as empresas, querem de seus consumidores? Um pouco de sua atenção. E nesta economia da atenção, os incentivos para conquistar e manter sua atenção às vezes são viciantes e perversos. Quantas vezes você não checa seu celular para ver se não recebeu alguma notificação, mesmo sabendo que não tem nada de novo, instintivamente? Quantas vezes não checa redes sociais?

Fazendo o paralelo com as eras, em cada uma delas teríamos um grande ofensor. Quando éramos caçadores-coletores, a fome. Após a agricultura, a escravidão. Após a indústria, o trabalho. E agora após a revolução digital? O que nos torna desnecessários? Talvez a ignorância.

Na era do conhecimento, a atenção é ouro.

E o Ronaldinho Gaúcho?

Ok. Se você leu até aqui, e ainda não viu nada sobre o craque dos dibres neste texto, deve entender o porquê dele estar tanto aqui quanto numa conferência deste tipo. Não só ele, como também o craque português Luís Figo e o astro de Hollywood Joseph Gordon-Levitt. Os três, sócios de três diferentes empreendimentos lançados ou destacados na conferência. Aliás, nesta economia da atenção, não são poucos os empreendimentos criados por celebridades ou que usam deste tipo de atenção para se promover. Vamos pensar um pouco sobre isso.

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